Gandulla atuou no Boca Junior de 1940 à 1943 e fez 26 gols em 57 jogos.

Gandulla atuou no Boca Junior de 1940 à 1943 e fez 26 gols em 57 jogos.

Bernardo Gandulla foi um jogador (atacante) argentino de futebol que veio para o Brasil nos anos 40 contratado pelo Vasco da Gama. Existe a história romântica de que Bernardo Gandulla jamais era escalado, dizem que o jogador ficava então assistindo a treinos e jogos, e não havia uma só bola que escapasse do campo sem que Gandulla não corresse atrás para buscá-la, devolvendo educadamente para os colegas titulares. Muitos dizem que era também uma das origens do Fair Play, pois o jogador fazia isso para demonstrar tanto pró-atividade quanto respeito aos colegas de time. Daí surgiu a origem do nome “gandula” para os garotos, e agora também meninas, que repõem a bola nos estádios.

Gandulla jogou no Ferro Carril Oeste(Arg) , Vasco da Gama (Bra) , Boca Juniors (Arg) e Atlanta (Arg). O jogador ainda chegou a fazer uma partida na seleção da Argentina.  Ao se aposentar da carreira de jogador, foi treinador do Defensores de Belgrano (Arg) e Boca Juniors (Arg). Faleceu aos 83 anos no dia 07 de julho de 1999.

Mito ou realidade?

A função dos gandulas todos já conhecem: buscar as bolas que saem de campo e que vão para longe. Sem os gandulas, provavelmente a velocidade do jogo ficaria comprometida, aumentando os intervalos a cada vez que uma bola saísse de campo. O que muitos não sabem é a origem da palavra gandula, a etmologia (estudo da origem das palavras) irá nos ajudar quanto a isso. Se buscarmos em dicionários, podemos achar algumas definições quanto ao termo gandula. A maioria dos dicionários irá dar a seguinte explicação: Pessoa encarregada de buscar e devolver, aos jogadores, as bolas que saem do campo (de futebol, de tênis etc.), durante uma partida. Alguns irão mais longe, buscarão a etmologia na palavra gandulo, que significa garoto vadio, desocupado. A associação já era usada na década de 1930.

Mas em muitas fontes e livros, veremos a associação do nome gandula a Bernardo Gandulla. Os historiadores contestam a versão proliferada de que o termo gandula veio do jogador argentino do Vasco que ia buscar as bolas durante os jogos. A lenda do seu sobrenome se misturou  tanto a  realidade da origem do termo, que até os dias de hoje chega-se  a constar em um dos mais respeitados dicionários do país, o Houaiss. “Bernardo Gandulla, jogador de futebol do Vasco da Gama no final da década de 1930, que tinha o hábito de buscar as bolas que saíam de campo”, escreve o dicionário sobre a etimologia da palavra.

Max Gehringer (membro Memofut).

Max Gehringer (membro Memofut).

Historiadores contestam o mito ou lenda criados sobre o jogador argentino do Vasco dos anos 40. Dizem que trata-se de puro romantismo e que a história tomou força por causa da mídia que queria vender jornais. Walmer Peres, historiador do Centro de Memória do Vasco diz o seguinte: “Quando o Gandulla chegou ao Rio, ele veio com muita pompa. Ele era bom de bola. Isso foi um romance que acabou se tornando uma verdade”. O historiador complementa: “O termo gandula poderia se referir a garoto, que era gandulo, vadio, tratante. Gandulo e gandula já era utilizado para outras coisas, e o termo gandula já existia dentro do cenário esportivo carioca antes da chegada de Gandulla”.

Outra referência que confirma o Mito é Max Gehringer, membro do Grupo Literatura e Memória do Futebol (Memofut), que vai na mesma linha. “É totalmente mito”. Segundo Gehringer, existia uma coluna do “Jornal do Brasil” (jornal extinto), chamada “Pergunte ao João”, onde um leitor perguntou sobre a origem do termo gandula. Após consulta a companheiros de time do Vasco, a história foi negada, mas o chefe de redação da publicação, buscando alcançar ibope, confirmou totalmente a história. Com a confirmação da história que era muito mais vendável do que a verdadeira, o Mito ganhou força e foi se propagando, chegando até os dias atuais. O historiador do Vasco concorda que a história é lenda, mas conclui. “A história não é verdade, mas até que ponto? Ok, o termo não existia por causa do jogador, mas só se tornou popular, fora do Rio de Janeiro, por causa dele”.

Verdadeira história

”Trio de ouro” do Vasco. Alfredo, Viladoniga e Gandulla (à direita)

”Trio de ouro” do Vasco. Alfredo, Viladoniga e Gandulla (à direita)

O Vasco da Gama se interessou pelo argentino durante uma passagem da seleção argentina em 1939 na Copa Roca daquele ano. No dia 3 de março de 1939, chegou o contratado Gandulla, um ponta que jogava no Ferro Carril Oeste, de Buenos Aires. A própria contratação foi caso de justiça, pois o Ferro Carril não queria liberar o jogador, pois argumentava que detinha o passe do jogador, mas após uma ação trabalhista o jogador foi liberado para atuar no Vasco. Segundo Gehringer, “talvez seja um dos mais antigos casos em que um juiz que não tem nada a ver com um tribunal esportivo deu uma sentença permitindo que um jogador atuasse, para exercer uma profissão”.

O jogador argentino atuou pelo Vasco em 29 partidas, quase todas como titular. Fez dez gols em dez vitórias, oito empates e 11 derrotas. “(Gandulla) chamou a atenção da imprensa, da crônica esportiva, então sua passagem ficou marcado pelo cenário esportivo carioca. E como era a capital federal, o que se fazia aqui repercutia, e o nome foi se popularizando entre quem acompanhava os eventos esportivos”, confirma o historiador Walmer Peres. “Houve uma congruência de fato. E como o nome Gandulla, através do Vasco, se espalhou Brasil afora, foi perfeito para criar esse romance”, explica o historiador vascaíno.

Segundo Max Gehringer, Gandulla realmente gostava de pegar a bola com as mãos, mas por outro motivo. “Era também conhecido como um camarada que reclamava demais. Num dos jornais em que pesquisei, estava escrito que não era que ele pegava a bola para rapidamente repor o jogo. Ele pegava a bola e colocava em baixo do braço para reclamar com o juiz”. Ou seja, até mesmo os historiadores se divertem ao comentar sobre o assunto que deu origem a um grande Mito do futebol. Bem, em uma coisa podemos concordar, a lenda é no mínimo curiosa e traz lembranças de um tempo nostálgico do futebol brasileiro. No mínimo uma curiosidade interessante.

Fato curioso

A gandula Fernanda gerou polêmica na final da Taça Rio de 2012.

A gandula Fernanda gerou polêmica na final da Taça Rio de 2012.

Em 2012, nas finais da Taça Rio, ocorreu um fato que faria com que mudasse as regras de como o gandula deve devolver a bola ao jogador de futebol. Uma gandula chamada Fernanda Maia, fez uma devolução de bola inusitada que gerou muita polêmica. A gandula, percebendo que a bola sairia pela lateral , logo que a bola deixou o campo, atirou uma outra bola para o jogador do Botafogo. A reposição rápida facilitou o contra-ataque do time, que pegou a defesa do Vasco desarmada. O lance resultou no primeiro gol do Botafogo, que acabou vencendo a partida e se classificando para a final do Campeonato Carioca. A CBF providenciou um novo protocolo, onde os gandulas não podem mais devolver bolas nas mãos de jogadores.

O na época coordenador de Instrução de Arbitragem da CBF, Manoel Serapião Filho disse a imprensa: “Esses fatos foram a gota d’água e nos estimularam a baixar um protocolo de procedimentos para os gandulas”. A CBF baixou um novo protocolo e a regra foi explicada por Serapião:  “A bola tem que ser posta no chão, fora do campo, perto do local onde ela saiu. Na hipótese de o jogador já estar esperando a bola, ela tem que ser rolada para ele pelo solo”.

Boas Apostas!