A final da Copa do Mundo é o “jogo dos jogos” em contexto de seleções.

Uma vitória garante a imortalidade, ao passo que uma derrota, embora não apague um percurso notável, também marca uma carreira.

Ao longo da história do futebol, foram vários os “grandes” que a venceram e que a perderam.

Por norma, o cenário é sempre de equilíbrio e, assumindo isso, há uma questão central que se coloca: será que a final vai ficar decidida no tempo normal? Ou será preciso recorrer a prorrogação e eventualmente pênaltis?

Essa é uma pergunta à qual ninguém consegue responder a menos que seja o feliz proprietário de uma bola de cristal, mas um revisionismo histórico permite identificar tendências em finais da maior competição de seleções à escala global.

Como se desempata a final da Copa do Mundo?

Se o juiz apitar para o final dos 90 minutos – acréscimos incluídos – e se verificar um empate em uma final da Copa do Mundo, a partida segue para prorrogação.

A prorrogação existe em finais da Copa do Mundo desde a primeira edição, disputada em 1930.

O regulamento não mais se alterou: em caso de empate, as equipes disputam 30 minutos adicionais, divididos em dois períodos de 15 minutos.

A primeira decisão decidida com recurso a prorrogação remonta a 1934, quando a Itália bateu a Tchecoslováquia por dois a um.

Aos dias de hoje, se a igualdade permanecer após os 30 minutos adicionais, a decisão segue para os pênaltis.

Desde quando é que há pênaltis na Copa do Mundo?

Ainda que a prorrogação estivesse instituída desde 1930, os pênaltis só foram introduzidos mais tarde, como forma de desempate.

Ainda que o International Board tenha aprovado a introdução dos pênaltis como forma de desempate em 1970, foi preciso esperar por 1982 para que passassem a integrar o regulamento das Copas do Mundo.

Quis o destino que o primeiro encontro decidido em pênaltis acontecesse logo nessa Copa do Mundo, nomeadamente na semi entre a França e a Alemanha Ocidental.

Concluídos os 120 minutos com um empate a três, foi preciso recorrer aos pênaltis para encontrar um vencedor. Aí, a Alemanha foi mais forte, ao vencer de 5 a 4.

Porém, e porque é de finais que estamos falando, importa perceber qual foi a primeira decisão da Copa do Mundo que foi arrastado até os “castigos máximos”.

Na realidade, a primeira grande final de uma Copa do Mundo decidida nos pênaltis permitiu coroar precisamente a seleção do Brasil, corria o ano de 1994. Frente à Itália, a “Canarinha” venceu de três a dois após um empate sem gols. 

De forma sumária, essa relação dos pênaltis com a maior competição de seleções do globo, especificamente com finais, pode ser resumida em três atos:

  • A introdução por parte do International Board no início da década de 70;
  • A entrada em vigor na Copa do Mundo de 1982;
  • A primeira final decidida nos pênaltis, em 1994.

Quantas finais foram decididas para lá do tempo normal?

A Copa do Mundo 2026 corresponde à 23.ª edição da história da competição. 

Podemos, portanto, considerar 22 finais até os dias de hoje, embora precisemos fazer um “parênteses” em relação a pelo menos uma delas – a decisão de 1950, entre Brasil e Uruguai, no célebre “Maracanazo”, não foi propriamente uma final, já que o campeão foi apurado por um grupo final de quatro equipes. De qualquer das formas, embora deva ser considerado para efeitos de contagem absoluta, não tem influência na que não houve recurso a tempo extra – na altura, a regra dos pênaltis ainda não existia.

Pois bem, mesmo considerando essas 22 finais e incluindo o Brasil – Uruguai em causa nas contas, fique sabendo, até hoje, 8 das 22 finais não ficaram decididas no tempo normal. 

Em cinco delas, a prorrogação resolveu a questão.

No entanto, em outras três, foi mesmo preciso ir até os pênaltis.

Finais da Copa do Mundo resolvidas na prorrogação

As finais da Copa do Mundo decididas em prorrogação contam-se, literalmente, com os dedos de uma mão.

O campeão mundial foi apurado nos 30 minutos adicionais em nada mais nada menos que cinco edições da competição.

1934 – Itália 2-1 Checoslováquia

 Roma, capital italiana, foi a primeira cidade a acolher um final da Copa do Mundo que só ficou sentenciada após os 90 minutos regulamentares.

A Checoslováquia até entrou a vencer, mas a Itália empatou a partida bem perto do fim, levou a decisão para a prorrogação e foi aí que triunfou com um gol da autoria de Angelo Schiavio.

1966 – Inglaterra 4-2 Alemanha Ocidental

Se em 1934 a prorrogação permitiu coroar a nação que atuava em casa, em 1966, a situação foi bem idêntica.

Em uma Copa marcada por várias polêmicas, entre as quais a famosa alteração do encontro da semi entre Portugal e Inglaterra “à última da hora”, a final também ficou marcada por um episódio… no mínimo, caricato.

Após o empate a dois gols no tempo normal entre ingleses e alemães, um alegado “golo fantasma” de Geoff Hurst, autor de um “hat-trick”, permitiu aos britânicos fazerem o 3-2, antes de fecharem com o quarto gol, também da autoria de Hurst.

A dúvida permanece até os dias de hoje, com os germânicos a alegarem que a bola não ultrapassou a linha de gol após embater no travessão.

1978 – Argentina 3-1 Países Baixos

A Copa do Mundo de 1978, marcada pelo fato de ter sido disputada sob um clima de forte tensão política, devido à violenta ditadura militar que assolava o país, teve final entre a anfitriã Argentina e a seleção dos Países Baixos, que à época não pôde contar com os préstimos da referência Cruyff.

Com o apoio do seu povo, a Argentina chegou ao final do tempo normal igualada com a congénere dos Países Baixos, mas no tempo extra, conseguiu mesmo levar a melhor. Mario Kempes, estrela da “albiceleste”, fez o 2 a 1 já na prorrogação, antes de Daniel Bertoni selar a vitória.

2010 – Espanha 1-0 Países Baixos

32 anos depois, a “Laranja Mecânica” voltou a não ser feliz na decisão da maior competição de seleções do globo.

Em Joanesburgo, na Copa do Mundo da África do Sul, a seleção dos Países Baixos se enfrentou à Espanha e perdeu por um a zero após prorrogação.

“La Roja” garantiu a conquista do título mundial pela primeira vez em sua história ao levar a melhor com um gol da autoria de Andrés Iniesta ao minuto 116. Para a posteridade ficou o icónico festejo com dedicatória ao falecido Dani Jarque.

2014 – Alemanha 1-0 Argentina

Sim, a “Copa do 7 a 1”.

O vexame caseiro às mãos da Alemanha marcou uma geração.

Após “atropelar” o Brasil e vestir a pele de vilã no capítulo mais negro da história do futebol “Canarinho” em termos esportivos, a seleção da Alemanha se enfrentou à Argentina e conquistou a Copa ainda que com recurso a “horas extra”.

Aos 113 minutos do desafio, Mario Gotze, bem jovem à época, apontou o gol que deu o título mundial à Alemanha.

Finais da Copa do Mundo decididas nos pênaltis

Para lá das três edições da Copa do Mundo que ficaram sentenciadas na prorrogação, também tivemos edições que precisaram ir para os pênaltis. A primeira delas, como já vimos, até teve o Brasil como protagonista.

1994 – Brasil 0-0 (3-2) Itália

Para lá de ter sido a primeira final da história decidida nos pênaltis, essa decisão da Copa do Mundo de 1994 também foi a primeira sem gols.

Em Pasadena, o Brasil venceu a Itália e conquistou o tetracampeonato mundial.

E porque os melhores também falham… Para a história ficou o fato de Roberto Baggio, a grande figura da “Squadra Azzurra” à época, ter sido o responsável por falhar o pênalti ao cobrar por cima do travessão.

2006 – Itália 1-1 (5-3) França

Volvidos 12 anos, a história foi escrita de modo distinto e a seleção italiana pôde sorrir no final de uma decisão através da marcação de pênaltis.

Na Copa do Mundo da Alemanha, em uma final imortalizada pela cabeçada desferida por Zinedine Zidane em Materazzi, a Itália foi mais forte nos pênaltis após uma igualdade a um gol.

2022 – Argentina 3-3 (4-2) França

Tanto pela proximidade quanto pela “epicidade”, a final da Copa do Mundo 2022 ainda está bem presente na memória de todo e qualquer torcedor.

A Argentina abriu uma desvantagem de dois a zero, Mbappé igualou a partida em um espaço de 2 minutos, Messi deu nova vantagem à Argentina na prorrogação e Mbappé ainda conseguiu empatar.

Nos pênaltis, os argentinos não tremeram e conquistaram a Copa do Mundo.

Últimas finais decididas na prorrogação e nos pênaltis

2014

O Brasil acolheu a última final de uma Copa do Mundo decidida com recurso a prorrogação.

No Maracanã, a Alemanha se superiorizou à Argentina por um a zero, com um gol de Mario Gotze.

2022

No que à última Copa do Mundo decidida em pênaltis diz respeito, precisamos recuar somente quatro anos, até a final de Lusail, ganha pela Argentina ante a França.

Duas das três últimas edições decididas no tempo extra

Pois bem, na antecâmara dessa final da Copa do Mundo de 2026, chegamos à conclusão que duas das últimas três finais da competição foram decididas para lá do tempo normal.

A exceção correspondeu mesmo ao duelo entre a França e a Croácia, na Copa do Mundo de 2022, vencida pelos gauleses por quatro a dois.

Se recuarmos ainda mais, até 2010, considerando assim as últimas quatro finais, concluímos que foi preciso recorrer a tempo extra para sentenciar três dessas decisões.

Tendência para 2026?

Querer vencer vs Medo de perder

Essa é a dicotomia que se impõe quando o assunto é uma final da Copa do Mundo.

Por muito que ambas as seleções tenham muita vontade de “alcançar o Olimpo futebolístico” através da conquista da Copa do Mundo, uma final se disputa sob um clima de forte tensão, na qual as equipes envolvidas evitam ao máximo a exposição ao risco.

Precisamente por isso, durante largos minutos, o medo de perder pode muito bem se sobrepor a essa vontade de vencer, arrastando a decisão para lá do tempo normal.

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